terça-feira, dezembro 19, 2006

O Natal dos Políticos - Cristóvam Buarque


Um Natal Deseducado

Era um domingo, um dos derradeiros. Na vida dele, o segundo domingo mais importante de um ano trabalhoso. Uma árvore enfeitada ilumina o ambiente, mas, de antemão, ele sabe que não terá o presente que tanto queria. Foi dado a outro.

- Quem sabe daqui a quatro anos! – suspira

É natal. E ele lembra das milhares de crianças que não podem escrever sua cartinha com pedidos a Papai Noel.

- Se ao menos tivessem continuado com o Bolsa-Escola... se instituíssem o Quinqüênio da Alfabetização – pensa.

Tentado se livrar da tristeza que a constatação da derrota traz, se arruma para a ceia de Natal. Roupas pesadas, gorro vermelho, botas... um calor sufocante! O sacrifício vale a pena. Afinal, muito se esperou por esse momento durante todo o ano e ele é o protagonista, o portador dos sonhos e das esperanças dos contemplados. Sabe que pode cumprir bem o seu papel. É hora de saborear sua vitória. Venceu todos os tios e pais da família e foi eleito Papai Noel da casa mais uma vez. Não pode deixar que as lembranças daquele domingo, o mais importante do ano, estraguem a festa deste.

Meia-noite, hora do triunfo. Ele está pronto. As crianças estão indóceis e os adultos também aguardam com ansiedade. O que será que o Bom Velhinho trouxe para nós?
Anunciado o primeiro nome: Um livro! “A Borboleta Azul”.

- Que capa bonita, tio. Sobre o que ele fala? – pergunta a contemplada

- Você terá que ler tudinho. Vai te ajudar muito. É sobre um grupo de meninos que querem salvar a borboleta que vive perto da escola.

- Borboleta na escola? Ah sim, sim. Você não acha que é meio inadequado para uma cirurgiã de 40 anos?
- O que é isso? Você não sabe que a base de tudo está na Escola?

Para a segunda criança: um manual de etiqueta.

- Mas, Papai Noel, eu pedi uma boneca! – diz a menina de cinco anos aos prantos.

- Menina mal educada. Agora tenho certeza que acertei o presente.

O terceiro presente era o número de matrícula em uma escola pública de Brasília.

- Tio, eu ...

- O que foi? Vai reclamar do que ganhou também? Você sabe bem que as escolas de Brasília melhoraram muito depois da minha administração. Eu investi em educação, porque sei que tudo começa na escola. As famílias se estruturam a partir disso. O país só prospera se tiver pessoas instruídas.
- Tio, eu já estou terminado o mestrado! – grita o rapaz

Os olhares reprovadores, o choro infantil, as argumentações e reclamações aumentavam a cada presente aberto.

- Um cadastro do Bolsa-escola! Mas esse programa nem existe mais! – berrava um

- Plástico para encapar livros didáticos? – questionava outro

- Lápis e borracha? Eu quero o Play Station 2!

Todas as perguntas tinham a mesma resposta:
- Essa família precisa é de educação.

Seguida de um discurso a respeito do mimo de um, da falta de modos de outro, das brigas entre primos, do egoísmo de alguns pais, do sobrinho que fala errado e da afilhada que ainda não passou no vestibular.

Ele repetia, incessantemente.

- Educação. É o que vai salvar esta família, minha gente. Educação, temos que investir na educação. Eu vou reativar o Bolsa-escola aqui em casa...

Vivi

6 comentários:

shirlei horta disse...

Adorei, Vivi, você pegou o gancho do humor de maneira perfeita, sem ser histriônica. É a cara do CC, tô achando que você já passou um natal com ele.......

Túlio disse...

Aaaahhhhh Shirlei!!!! Conseguiu comentar né?

Vivi, gostei bastante do conto. Você pegou o jeitão samba de uma nota só e deu uma bagunçada legal. O nível continua lá em cima. Complicações a vista...

Fábio Max disse...

Muito legal, parabéns Vivi!

Acho que, se papai-noel efetivamente existisse, teria que fazer assim em cada lar brasileiro durante anos à exaustão...daí salvaria o país!

Vivi disse...

Ai, gente, brigadinha pelos elogios. Vocês são muito bonzinhos.

malu disse...

Parabens, Vivi!
Ficou otimo. Mais devo confessar que eu nao gostaria de fazer parte da familia "desse" Papai Noel, prefiro outros presentes.

Leticia disse...

Vivi, estou passando de novo aqui para citar você nominalmente. O texto está ótimo, ótimo!